Atheos Publicado: 04/05/2000
Atualizado: 31/03/2002
UMA INTRODUÇÃO AO ATEÍSMO

de Matthew


Ateísmo: Dispensa a idéia do caráter religioso e sagrado da vida e não recorre à divindade para justificar a existência. Surge na Europa, na Antiguidade, e manifesta-se, principalmente, na Idade Moderna e na Contemporânea, no plano cultural, filosófico, político e social.
O Ateísmo ganha força a partir do declínio do feudalismo e do surgimento da civilização humanista durante o Renascimento. Está ligado ao racionalismo e à exaltação da ciência empírica no contexto de uma nova economia, fruto dos interesses da burguesia emergente. Enfatiza o ideal de autonomia da razão e a recusa de explicações de origem sobrenatural. Identifica-se com o iluminismo e o processo de secularização da sociedade e do Estado em oposição ao antigo regime. Na Idade Contemporânea, impulsionado pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento do capitalismo, o Ateísmo influencia correntes filosóficas e movimentos político-sociais, como o liberalismo, a democracia, o anarquismo e o socialismo.
Segundo dados da Enciclopédia Britânica, em 1994 cerca de 240 milhões de pessoas declaravam-se ateístas (ativamente contrárias a qualquer religião) e mais de 900 milhões diziam-se não-religiosas (sem nenhum tipo de crença). Reunindo mais de 1 bilhão de pessoas, aproximadamente 20% da população mundial, o grupo formado por ateus e não-religiosos só perde em tamanho para o dos adeptos do cristianismo.

(Almanaque Abril-1998)

Este artigo tem a intenção de fazer uma apresentação geral do Ateísmo. Embora eu tenha tentado ser o mais neutro possível em relação aos temas aqui tratados, deverá sempre ser lembrado que este documento representa somente um ponto de vista. Gostaria de encorajar o leitor a tirar as suas próprias conclusões; alguns livros importantes estão listados em documento anexo.

Para dar um sentido de coerência e progressividade, eu apresentei este trabalho como uma conversa imaginária entre um ateísta e um teísta. Todas as perguntas feitas pelo imaginário teísta, são questões que apareceram repetidamente no alt.atheism, desde que esse grupo de notícias foi criado. Algumas outras dúvidas freqüentemente levantadas, foram respondidas em um documento anexo.

Peço que se note que este artigo está orientado para responder às perguntas colocadas do ponto de vista cristão. Isto deve-se ao fato de os arquivos FAQ conterem perguntas que foram realmente feitas, e que são principalmente cristãos que polemizam no alt.atheism.

Assim quando falo sobre religião, estou-me referindo primeiramente aos credos do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo, que sempre envolvem algum tipo de divindade sobre-humana. A maioria das discussões aplicar-se-ão a outras religiões, mas não a algumas outras.

O que é o Ateísmo?

O Ateísmo caracteriza-se pela ausência de crença na existência de deuses. Essa ausência de crença geralmente vem, ou duma deliberada decisão filosófica, ou duma dificuldade em acreditar em ensinamentos religiosos que parecem literalmente incríveis. Não se trata portanto duma falta de crença nascida da simples ignorância dos preceitos religiosos.

Alguns ateus vão além duma simples descrença em deuses. Eles ativamente afirmam que deuses particulares ou todos os deuses, simplesmente não existem. A descrença em deuses é muitas vezes conhecida como a posição de "Ateísmo passivo ou fraco"; afirmar que deuses não existem (ou que não podem existir), é a posição conhecida como "Ateísmo ativo ou forte".

Com referência aos povos que nunca foram expostos aos conceitos de "Deus", seria um tema para debate se eles são ou não "ateus". Mas como é pouco provável que encontremos hoje alguém que nunca tenha ouvido falar em religião, esse debate não apresenta agora importância... (Estudos antropológicos nos ensinam que houve muitos povos que nunca acreditaram em deuses, como os esquimós.)

É no entanto importante esclarecer a diferença entre as posições dos ateísmos ativo e passivo. "Ateísmo passivo" é simplesmente ceticismo, descrença na existência de Deus. O "Ateísmo ativo" é uma afirmação positiva que Deus não existe. Não se deixe iludir, acreditando que todos os ateus têm uma posição de "ativos". Há uma grande diferença qualitativa entre essas duas posições; não é só uma questão de grau.

Alguns ateus sustentam a não existência de todos os deuses; outros limitam o seu ateísmo a deuses específicos, como o Deus Cristão, em vez de fazerem uma negação generalizada.

Mas a descrença em Deus não é a mesma coisa que a afirmação que ele não existe?

Definitivamente não. A descrença numa proposição significa que não se acredita que ela é verdadeira. Não crer que alguma coisa é verdadeira não é equivalente a crer que ela é falsa. Uma pessoa pode simplesmente não ter idéia se essa coisa é verdadeira ou falsa. O que nos leva ao agnosticismo.

O que é então o agnosticismo?

O termo "agnosticismo" foi cunhado pelo Professor T.H. Huxley em uma reunião da Sociedade Metafísica, em 1876. Ele definiu o agnóstico como alguém que nega tanto o Ateísmo (ativo) como o Teísmo e que acredita que a questão da existência ou não dum poder superior não foi nem nunca será resolvida. Outra maneira de apresentar isso é dizer que um agnóstico é alguém que acredita que nós não sabemos nem podemos ter certeza se um deus existe.

Desde essa época, no entanto, o termo "agnóstico" também tem sido usado para descrever aquele que não acredita que essa questão seja intrinsecamente incognoscível, mas por outro lado crê que as evidências pró e contra Deus não são conclusivas, ficando assim indeciso sobre o assunto.

Para se reduzir a confusão estabelecida sobre o uso da expressão "agnosticismo", é recomendável que se use o termo de "agnosticismo estrito" para a definição original, e que se utilize a expressão "agnosticismo empírico" quando nos referirmos à segunda definição.

As palavras são entes escorregadios e a linguagem é inexata. Cuidemo-nos para não acreditar que poderemos induzir o ponto de vista filosófico de alguém simplesmente pelo fato de ele se intitular ateu ou agnóstico. Por exemplo, muita gente usa a palavra agnosticismo com o sentido que aqui definimos como "Ateísmo passivo" e usa a expressão "Ateísmo" apenas com o significado de "Ateísmo ativo".

Cautela também com as palavras "ateísta ou ateu", porque elas têm muitas nuanças de significado que fica difícil generalizar. Só poderemos afirmar, com certeza, que os ateus não acreditam em Deus. Por exemplo, não podemos estar convictos que todos os ateus acreditam que a Ciência é o melhor caminho para se desvendar tudo sobre o Universo.

E a expressão Livre-pensador? O que significa?

O Livre-pensador é aquele que pensa livremente - alguém que está preparado para considerar qualquer possibilidade, alguém que determina quais idéias estão certas ou erradas através da razão, de acordo com sistemas consistentes de regras tal como o do método científico.

A Freedom From Religion Foundation (Fundação da Liberdade em relação à religião) tem um "folheto" sobre o que significa ser um livre-pensador, em http://www.ffrf.org/nontracts/freethinker.html.

Então qual é a justificação filosófica ou base do Ateísmo?

Há muitas justificativas filosóficas para o Ateísmo. Para acharmos porque uma pessoa particular escolheu ser um ateu, o melhor é perguntar-lhe diretamente.

Muitos ateus acham que a idéia de Deus, da maneira como é apresentada pela maioria das religiões, é essencialmente auto-contraditória, e é logicamente impossível que um tal Deus exista. Outros são ateus por causa do ceticismo, por não possuírem evidências que Deus existe.

Há muitos livros que fornecem a justificação filosófica do Ateísmo, como "Ateísmo: Uma Justificativa Filosófica" de Martin e "Ateísmo: O Caso Contra Deus" de Smith. Alguns desses livros estão na lista de documentos "Atheist Media".

É claro que há pessoas que são ateias sem terem nenhum argumento lógico que sustente o seu ateísmo. Para alguns é simplesmente a mais confortável posição de senso comum que se pode tomar.

Mas não seria impossível provar a não-existência de alguma coisa?

Há muitos exemplos contrariando essa afirmação. Por exemplo, é muito simples provar que não existe um número primo maior que todos os outros números primos. Claro que se trata aqui de objetos bem definidos obedecendo a regras também bem definidas. Se deuses ou universos são similarmente bem definidos é matéria para um debate.

Contudo, assumindo por um momento que a existência de Deus não é impossível de demonstrar, temos ainda razões sutis para afirmar a inexistência de Deus. Se nós aceitamos que algo não existe, é sempre possível mostrar que essa suposição é inválida encontrando-se um simples contra-exemplo.

Por outro lado, se nós admitimos que algo existe, e se o objeto em causa não é impossível de ser provado, demonstrar que essa admissão é inválida pode requerer exaustivas pesquisas de todos os lugares onde o tal objeto possa ser encontrado, para se provar que ele não está lá. Uma tão completa pesquisa é muitas vezes impraticável ou impossível.

Não existe esse problema com os maiores números primos, porque se pode provar matematicamente que não existem. No entanto, é geralmente aceito que nós temos de assumir que objetos não existem até que tenhamos alguma evidência contrária. Até mesmo os teístas seguem esta regra a maior parte do tempo; por exemplo, eles não acreditam em unicórnios, mesmo não podendo, de modo conclusivo, provar que não há unicórnios em nenhum lugar do mundo.

Assumir que Deus existe é assumir uma coisa que provavelmente não poderá ser testada. Nós não temos condições de fazer uma pesquisa exaustiva por todos os cantos onde Deus poderia ser encontrado, de modo a provar que ele não existe em lugar algum. Portanto, o ateu cético assume como padrão que Deus não existe, porque isso é uma assunção que se pode testar.

Aqueles que professam o ateísmo ativo, usualmente não afirmam que nenhum tipo de divindade existe; em vez disso, eles unicamente se restringem às variedades de deuses descritos pelos seguidores das diversas religiões. Portanto, embora seja impossível provar conclusivamente que deuses não existem, pode ser possível demonstrar que (digamos) o Deus definido por algum livro religioso em particular não existe. Pode até mesmo ser provado que nenhum dos deuses descritos pelas religiões atuais existe.

Na prática, acreditar que nenhum dos deuses definidos pelas atuais religiões existe, está muito próxima da argumentação de que nenhum Deus existe. No entanto, é suficientemente diferente de dizer que os contra-argumentos baseados na impossibilidade da negação de todos os tipos de Deus não podem ser aplicados.

Mas e se Deus é essencialmente indetectável?

Se Deus interage com o nosso Universo, então os efeitos da sua interação devem ser mensuráveis. Portanto, a sua interação com o nosso universo deve ser detectável.

Se Deus é essencialmente indetectável, então quer dizer que ele não atua no nosso universo de nenhum modo. Muitos ateus argumentariam que, se Deus nunca interage no nosso universo, então não tem importância se ele existe ou não.

Se a Bíblia é para ser acreditada, então Deus foi facilmente detectado pelos Israelitas. Seguramente ele seria ainda detectável hoje? Porque a situação mudou?

Note que eu não estou pedindo que deus interaja dum modo cientificamente verificável, físico. Eu, potencialmente, poderia receber alguma revelação, alguma experiência direta de Deus - alguma experiência desse tipo seria incomunicável e não sujeita a verificação científica; mas no entanto seria tão convincente como qualquer prova pode sê-lo.

Mas seja por revelação direta ou por observação, seguramente deve ser possível perceber algum efeito causado pela presença de Deus; doutro modo, como poderíamos distingui-lo das outras coisas que não existem?

Deus é único. Ele é o ser supremo, o criador do universo. Ele tem de existir por definição.

As coisas não existem somente porque elas foram assim definidas. Nós conhecemos muitas descrições do Papai Noel - como ele se parece, o que ele faz, onde ele vive, como se chamam as suas renas, etc. Mas tudo isso não significa que ele existe.

Então, e se eu conseguir provar logicamente que Deus existe?

Primeiramente, antes de iniciar a sua prova, você deverá apresentar uma clara e precisa definição do que você quer dizer com "Deus". Uma prova lógica exige uma definição clara do que se está tentando provar.

Mas todos sabem o que significa 'Deus'!

As diferentes religiões têm noções muito diferentes de como Deus é realmente; elas divergem mesmo sobre matérias básicas como os deuses são, se do sexo masculino ou feminino, e outras. A idéia que um ateu possa ter do que as pessoas querem dizer com a palavra 'Deus', pode ser muito diferente da sua própria visão.

Certo, então se eu definir o que eu quero dizer com a palavra 'Deus' e depois provar logicamente que ele existe, será isso suficiente para você?

Mesmo depois de séculos de esforços, ninguém ainda apresentou uma prova transparente da existência de Deus. Apesar disso, entretanto, as pessoas muitas vezes acham que conseguem provar logicamente que Deus existe.

Infelizmente, a realidade não é decidida pela lógica. Mesmo se você pudesse provar rigorosamente que Deus existe, você não iria muito longe. Poderia acontecer que as tuas regras de lógica nem sempre tenham preservado a verdade - que o teu sistema lógico seja falho. Talvez as tuas premissas estivessem erradas. Pode também ser que a realidade não seja logicamente consistente. Finalmente, o único caminho para se descobrir o que realmente está acontecendo é pela observação. A lógica pode simplesmente te dar uma idéia onde e como olhar; mas muitos dos argumentos lógicos sobre Deus não permitem essa possibilidade.

A Lógica é uma ferramenta útil para analisarmos dados e inferirmos o que está acontecendo; mas se a lógica e a realidade divergem, então a realidade vence.

Parece-me então que nada convencerá você de que Deus existe

Uma clara definição de Deus e mais algumas evidências objetivas e convincentes seriam suficientes para convencer muitos ateus.

Porém, as evidências têm de ser objetivas; evidências anedóticas das experiências religiosas doutras pessoas não são suficientes. Uma forte e convincente experiência é necessária, porque a existência de Deus é uma afirmação extraordinária - e afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.

Certo, você pode pensar que há uma justificativa filosófica para o Ateísmo, mas esse fato não é uma crença religiosa?

Um dos passatempos mais comuns nas discussões filosóficas é "o jogo da redefinição". O ponto de vista cínico desse jogo é o seguinte:

A pessoa A começa fazendo contentemente uma afirmação. Logo que a pessoa B argumenta que tal afirmação não pode ser verdadeira, a pessoa A gradualmente redefine as palavras que usou na afirmação inicial, até que chega em algo que a pessoa B está preparada para aceitar. Ele então ressalta essa afirmação, junto com o fato de que B concordou, e continua a discussão. Finalmente A usa essa afirmação como um "fato aceito", mas no entanto volta a utilizar as suas definições originais das palavras, em vez das obscuras redefinições usadas para levar B ao acordo. Em vez de notar que o raciocínio está internamente inconsistente, B tenderá a dar-lhe razão.

A intenção desta digressão é que, para responder à pergunta "Não é o Ateísmo uma crença religiosa?", dependemos de modo crucial do significado da palavra "religioso". "Religião" é em geral caracterizada pela crença em um poder controlador sobrenatural - especialmente em alguns tipos de deuses - e pela fé e pela adoração.

(Vale a pena anotar de passagem que algumas variedades de Budismo não são "religião" de acordo com essa definição).

Com certeza o Ateísmo não é a crença em nenhum tipo de poder supra-humano nem é caracterizado pela adoração em nenhum relevante sentido. Ampliando a definição de "religioso" para incluir o Ateísmo, leva como resultado que muitos outros aspectos da atividade humana se tornem, de repente, também "religiosos", tal como a ciência, a política e assistir à TV.

Certo, talvez não seja uma religião no sentido estrito da palavra. Mas seguramente acreditar no Ateísmo (ou na Ciência) não é um ato de fé, tal como a religião?

Primeiro, não é inteiramente claro que o ateísmo cético é algo em que se crê.

Segundo, é necessário adotar um certo número de suposições ou crenças básicas para poder dar sentido às nossas experiências sensoriais. A maioria dos ateus procura admitir um mínimo de princípios básicos; e mesmo estes estão sujeitos a questionamento, no caso da experiência os colocar em dúvida.

A Ciência tem um certo número de princípios. Por exemplo, é geralmente aceito que as leis da Física são iguais para todos os observadores (ou pelo menos, todos os observadores em um sistema inercial). Estes são o tipo de admissões básicas que os ateístas fazem. Se a estas idéias básicas se pode chamar "atos de fé", logo quase tudo que se conhece pode-se dizer que é baseado em atos de fé, e então a expressão perde o seu significado.

A palavra fé é mais usada referindo-se a uma total e cega crença em alguma coisa. De acordo com esta definição, o Ateísmo e a Ciência seguramente não são atos de fé. Fica claro que alguns ateus ou cientistas podem ser tão dogmáticos como os crentes religiosos, quando afirmam que algo é "certo". No entanto, isso não é uma tendência normal; há muitos ateus que seriam até relutantes em afirmar com certeza que o universo existe.

A fé é também usada para se referir a uma crença sem o suporte da evidência ou de provas. O ateísmo cético certamente não se ajusta a essa definição, pois o ateísmo cético não tem crenças. O Ateísmo ativo está mais próximo, mas mesmo assim não a aceita, já que o mais dogmático dos ateus se procura apoiar em dados experimentais (ou na falta deles), quando afirma que Deus não existe.

Se o Ateísmo não é religioso, certamente não é anti-religioso?

Há uma infeliz tendência humana para considerar tudo como "a favor" ou "contra", ou como "amigo" ou "inimigo". A verdade não é assim tão dicotômica.

O Ateísmo é a posição que se opõe logicamente ao Teísmo; nesse sentido, pode-se dizer que é "anti-religião". Entretanto, quando os crentes religiosos se referem aos ateus como "anti-religiosos", normalmente querem sugerir que os ateístas têm algum tipo de antipatia ou ódio contra os teístas.

Esta categorização dos ateus como hostis à religião é bastante errada. Na realidade a atitude dos ateus para com os teístas cobre um amplo espectro.

A maioria dos ateus toma uma atitude de "viver e deixar viver". A não ser que sejam questionados, geralmente eles não mencionam o seu ateísmo, exceto talvez aos amigos mais próximos. Claro, isso se deve em parte, ao fato de que o Ateísmo não é "socialmente aceitável" em muitos países.

Poucos ateus são um tanto anti-religiosos, e podem até mesmo "converter" os outros quando possível. Historicamente, este tipo de ateus anti-religiosos têm tido pouco impacto na sociedade, com exceção dos países do Bloco Oriental.

(Uma pequena digressão: a União Soviética esteve inicialmente empenhada na simples separação da Igreja do Estado, tal como havia nos EUA. Os cidadãos soviéticos eram legalmente livres para prestar culto a quem quisessem. A instituição do "ateísmo de estado" surgiu quando Stalin tomou o controle da União Soviética e tratou de destruir as igrejas para assim conseguir o poder absoluto sobre a população).

Muitos dos ateus são bastante comunicativos acerca de suas crenças, exceto quando vêem a religião intervindo em assuntos que não lhe dizem respeito - por exemplo, no governo dos EUA. Esses indivíduos são geralmente de opinião que a Igreja e o Estado devem manter-se separados.

Mas se você não permitir à religião opinar sobre assuntos de Estado, não é o mesmo que ateísmo de estado?

O princípio da separação da Igreja e do Estado estabelece que o Estado não deve legislar em matéria de crenças religiosas. Em particular, isto significa que o Estado não só não pode apoiar uma religião em prejuízo doutra, como não deve promover nenhum tipo de crença religiosa.

Mesmo assim, as religiões podem pronunciar-se sobre matérias puramente seculares. Por exemplo, alguns crentes religiosos têm sido historicamente responsáveis por encorajar muitas reformas políticas. Mesmo hoje, muitas das organizações que fazem campanhas pelo aumento da ajuda internacional, têm embasamento religioso. Desde que elas promovam discussões sobre assuntos seculares e desde que não façam discriminação em bases religiosas, a maioria dos ateus sente-se muito feliz que elas tenham algo a opinar.

E sobre as preces nas escolas? Se não há Deus, porquê você se preocupa se as pessoas rezam?

Porque as pessoas que rezam são eleitores e legisladores, e tendem a fazer coisas que os que não rezam não podem simplesmente ignorar. Também rezas cristãs nas escolas são constrangedoras para os não-cristãos, mesmo que lhes seja permitido não terem de as frequentar. É particularmente pernicioso se as orações são dirigidas por um dos professores ou por qualquer outra pessoa com apoio oficial.

A diversidade de religiões e de crenças não-religiosas significa que é impossível formular uma oração que fosse aceitável para todos os que estiverem num acontecimento público.

Esta é uma das razões porque no sistema público de ensino dos EUA não é permitido apoiar crenças religiosas particulares através das aulas oficiais de religião nas escolas. As crianças, claro, são completamente livres para orar quando quiserem nos seus tempos livres; não se trata de proibir que as orações aconteçam na escola.

Você mencionou os cristãos que fazem campanha para o aumento da ajuda ao estrangeiro. Porque não há organizações de caridade ou hospitais ateus? Os ateus são contra as organizações religiosas de caridade?

Há muitas organizações de caridade, sem fins religiosos, para as quais os ateus podem contribuir. Alguns ateus contribuem para organizações religiosas também, devido ao bem que elas fazem. Alguns ateus trabalham voluntariamente em obras de caridade com base teísta.

A maioria dos ateus parece sentir que não o Ateísmo não deve se envolver com assuntos de caridade. Para eles, o Ateísmo é simples e obviamente um assunto do dia-a-dia, como o é a caridade. Muitos acham que é algo barato, para não dizer hipócrita, usar-se a caridade como uma maneira para promover uma série de crenças religiosas.

Para os "ateus passivos", construir um hospital para afirmar "Eu não acredito em Deus" é uma idéia estranha; é algo como fazer uma festa para dizer "Hoje não é o meu aniversário". Para quê fazer alvoroço? O Ateísmo é raramente evangelístico.

Você disse que o Ateísmo não é anti-religioso. Mas, não será por acaso uma resistência à própria formação, uma maneira de rebeldia?

Talvez seja, para alguns. Mas muita gente tem pais que não forçam nenhuma idéia religiosa (ou ateísta), e muitos desses escolhem se chamar ateístas.

É também inverossímil que algumas pessoas religiosas tenham escolhido a religião como uma resistência contra uma formação atéia, como uma diferente maneira de ser. Por outro lado, muita gente escolhe a religião como um modo de satisfazer as expectativas de outros.

No geral, não se pode concluir se o ateísmo ou a religião são resistência ou conformismo; embora em geral, as pessoas têm a tendência de ir atrás do grupo, em vez de atuar ou pensar independentemente.

Qual é a diferença entre os ateus e as pessoas religiosas?

Eles não acreditam em Deus. E isso é tudo.

Os ateus podem ouvir heavy metal - até mesmo de trás para a frente - ou podem preferir um Requiem de Verdi, mesmo que conheçam a letra. Eles pode usar camisas havaianas, podem-se vestir de negro, ou mesmo trajar túnicas cor de laranja. (Muitos budistas não acreditam em nenhum tipo de Deus). Alguns ateus até trazem consigo uma cópia da Bíblia - para argumentar contra, claro!

Seja você quem for, há muitas probabilidades de você ter conhecido diversos ateus sem saber disso. Os ateístas geralmente não têm nada de excepcional na aparência ou no comportamento.

Nada de excepcional? Mas não são os ateus menos morais do que as pessoas religiosas?

Depende. Se você define moralidade como a obediência a Deus, então claro que os ateus são menos morais, pois não obedecem a nenhum Deus. Mas usualmente, quando se fala em moralidade, fala-se em comportamento aceitável (certo) ou inaceitável (errado) na sociedade.

Os humanos são animais sociais, e para terem o máximo de êxito, eles devem cooperar com os outros. Esta é uma razão suficientemente boa para desencorajar a maioria dos ateus para um comportamento "anti-social" ou "imoral", puramente por motivos de auto-preservação.

Muitos ateus se comportam dum modo "moral" ou "compassivo", simplesmente porque eles sentem uma tendência natural para a empatia com os outros humanos. Porque então eles se preocupam com o que acontece com os outros? Não sabem, simplesmente eles são assim.

Naturalmente, há algumas pessoas que se comportam "imoralmente" e tentam utilizar o Ateísmo para justificar os seus atos. No entanto, há igualmente muita gente que se comporta "imoralmente" e procura usar as crenças religiosas para justificar as suas ações. Por exemplo:

"Aqui há alguém confiável dizendo que merece total aceitação: Jesus Cristo que veio ao mundo para salvar os pecadores (...) mas por essa mesma razão foi-me mostrada a misericórdia, para que em mim (...) Jesus Cristo possa exibir sua ilimitada paciência, como um exemplo para aqueles que crêem nele e recebem a vida eterna. Agora para o rei eterno, imortal, invisível, o único Deus, seja a honra e a glória para sempre."
A citação acima foi tirada duma declaração feita em juízo, em 17 de fevereiro de 1992, por Jeffrey Dahmer, o notável canibal e assassino-múltiplo de Milwaukee, Wisconsin. Parece que para cada ateu assassino-múltiplo, há um religioso assassino-múltiplo. Mas o que dizer dessa mais trivial moralidade?
Uma pesquisa, conduzida pela Roper Organization, evidenciou que o comportamento se deteriorou depois de experiências do "nascer de novo". Enquanto que somente 4% dos perguntados respondeu que se intoxicava antes de "nascer de novo", 12% fê-lo depois da conversão. Do mesmo modo, 5% usou drogas ilegais antes da conversão e 9% depois. Dois por cento admitiu ter-se envolvido com sexo ilícito antes da salvação; 5% depois.

["Freethought Today", setembro de 1991, pág. 12].

Parece assim que a religião não tem o monopólio da conduta moral.

Claro que a grande maioria das pessoas é convertida ao (e do) Cristianismo durante a sua adolescência ou pouco depois dos vinte anos. Esta é a idade em que se começa a beber e a ter vida sexual ativa. Pode-se assim admitir que os números acima simplesmente indicam que o Cristianismo não tem efeito sobre o comportamento moral, ou insuficiente efeito, que resulte na eliminação do comportamento imoral.

Existe algo como a moral ateísta?

Se você quer dizer "Existe a moralidade para ateus?", então a resposta é sim, como explicado acima. Muitos ateus têm idéias sobre a moralidade que são, no mínimo, tão fortes como as mantidas pelas pessoas religiosas.

Se você quer dizer "O Ateísmo tem algum código de moral característico?", então a resposta é não. O Ateísmo por si só não indica muito sobre como uma pessoa se comportará. A maioria dos ateus segue muitas das "regras morais" como os teístas, mas por diferentes razões. Os ateístas veêm a moralidade como algo criado pelos humanos, de acordo com a maneira que os homens sentem que o mundo "deveria" funcionar, em vez de vê-la como um conjunto de regras decretadas por um ser sobrenatural.

Então não são os ateus apenas teístas que negam Deus?

Um estudo da "Freedom from Religion Foundation", revelou que 90% dos ateus que foram entrevistados se tornaram ateístas porque a religião não serviu para eles. Chegaram à conclusão que as crenças religiosas eram fundamentalmente incompatíveis com o que observavam em volta deles.

Os ateus não são incrédulos por ignorância ou negação; eles são incrédulos por livre escolha. A larga maioria deles gastaram tempo estudando uma ou mais religiões, algumas vezes muito profundamente. Eles fizeram uma cuidadosa e pensada decisão ao rejeitar as crenças religiosas.

Esta decisão pode ser, claro, uma inevitável consequência da personalidade individual. Para uma pessoa naturalmente cética, a escolha do ateísmo é freqüentemente a única que faz sentido, e portanto é a única escolha que essa pessoa pode honestamente fazer.

A palavra "negação" pode ser usada para significar "a não aceitação da veracidade de". É nesse sentido apenas que os ateus negam a existência de Deus. Eles não estão "renegando", propositadamente ignorando a evidência; nem necessariamente asseguram positivamente a não existência de Deus.

Mas com certeza discutindo Deus desta maneira não é uma tácita admissão que ele existe?

De modo algum. As pessoas falam sobre Papai Noel em cada Natal; isso não significa que ele desce pela chaminé e deixa os presentes para nós. Participantes de jogos de fantasia discutem todo o tipo de criaturas estranhas, desde orcs e duendes a titãs e minotauros. Eles também não existem.

Mas os ateístas não querem acreditar em Deus?

Os ateus vivem suas vidas como se ninguém os vigiasse. A maioria deles não têm nenhuma vontade de ser observados de cima, não importando de quão boas possam ser as intenções do "Grande Irmão".

Alguns ateus até gostariam de crer num Deus - e daí? Devemos acreditar nas coisas só porque se deseja que sejam verdadeiras? Os riscos dessa aproximação deveriam ser óbvios. Os ateus decidem que desejar acreditar em alguma coisa não é suficiente; deve haver uma evidência para se acreditar.

Mas é claro que as ateus não veêm nenhuma evidência para a existência de Deus - eles não têm na sua alma a vontade de ver!

Muitos, senão a maioria dos ateus eram previamente religiosos. Como foi explicado antes, a grande maioria considerou seriamente a possibilidade que Deus existe. Muitos dos ateus gastaram tempo em orações, tentando chegar a Deus.

É claro que alguns ateus têm falta de uma mente aberta; mas assumir que todos os ateus são preconceituosos e insinceros, é ser ofensivo e cabeça dura. Comentários tais como "Claro, Deus está lá, você é que não está vendo bem", são suscetíveis a serem vistos como argumentos muito forçados.

Com certeza, se você deseja engajar um debate filosófico com ateus, é vital que você lhes dê o benefício da dúvida e assuma que estão sendo sinceros se disseram ter procurado Deus. Se você não deseja acreditar que eles estão dizendo basicamente a verdade, o debate é inútil.

A vida não é completamente sem objetivos para um ateu?

Muitos ateus vivem uma vida cheia de objetivos. Eles escolhem o que pensam que dá significado à vida e perseguem esses objetivos. Fazem com que suas vidas tenham valor, não ansiando pela vida eterna, mas sim tendo influência em outras pessoas que viverão para o futuro. Por exemplo, um ateu pode dedicar a sua vida a reformas políticas, na esperança de deixar a sua marca na história.

É uma tendência natural humana procurar um "sentido" ou "finalidade" em acontecimentos aleatórios. Contudo, não é de nenhuma maneira óbvio que "a vida" seja o tipo de coisa que tenha um "sentido".

Colocando doutro modo, nem tudo que parece uma pergunta é realmente algo tangível para perguntar. Alguns ateus acreditam que perguntar "Qual é o significado da vida?" é tão bobo como perguntar "Qual é o significado duma xícara de café?". Acreditam que a vida não tem finalidade ou sentido, simplesmente é.

Também, se algum tipo de força mística externa é necessária para nos dar um "sentido" à existência, seguramente isso torna sem sentido qualquer hipotética existência de Deus.

Então como os ateus encontram conforto em tempos de perigo?

Há vários modos de obter conforto:

  • A família e os amigos.
  • Animais de estimação.
  • Comida e bebida.
  • Música, televisão, literatura, artes e entretenimento.
  • Desporto e exercícios físicos.
  • Meditação
  • Psicoterapia
  • Trabalho

Isto pode parecer um vazio e vulnerável modo de enfrentar o perigo, mas e daí? Deveriam os indivíduos acreditar nas coisas porque elas dão conforto ou deveriam eles encarar a realidade, não importa quão árdua ela possa ser?

No fundo, é uma decisão que só compete ao indivíduo. A maioria dos ateus é incapaz de acreditar em alguma coisa, doutro modo inacreditável, somente porque isso os faz se sentirem bem. Eles põem a verdade antes do conforto, e consideram que por vezes a busca da verdade os faz sentirem-se infelizes, isso é apenas má sorte. Freqüentemente a verdade magoa.

Será que os ateus não temem que possam repentinamente descobrir que estão errados?

A resposta curta é "Não, e você?"

Muitos ateus tem sido ateus por anos. Eles conviveram com muitos argumentos e muitas supostas evidências da existência de Deus, mas acabaram por descobrir que todos eles são sem validade e inconclusivos.

Milhares de anos de crenças religiosas não resultaram em nenhuma boa prova da existência de Deus. Os ateus portanto sentem ser improvável provar, num futuro imediato, que estão errados, e por isso deixaram de se preocupar.

Então porque deveriam os teístas questionar as suas crenças? Não se aplicariam aqui os mesmos argumentos?

Não, porque as crenças questionadas não são similares. O Ateísmo fraco é uma "posição padrão" cética a ser tomada; não afirma nada. O Ateísmo forte é uma crença negativa. O Teísmo é uma crença positiva e forte.

Os ateus algumas vezes também argumentam que os teístas deveriam questionar as suas crenças por causa do real prejuízo que podem causar - não somente aos crentes mas a todos os outros.

Que tipo de prejuízo?

A religião representa uma enorme despesa para a humanidade, em finanças e trabalho. Não se trata só dos crentes desperdiçando o seu dinheiro na construção de igrejas; pense no tempo e nos esforços perdidos na construção de templos, em orações, etc. Imagine como esses esforços poderiam ser mais bem empregues.

Muitos teístas acreditam nas curas milagrosas. Há muitos exemplos de casos de pessoas doentes que foram "curadas" por clérigos, deixaram de tomar os remédios prescritos pelos médicos e por isso morreram. Alguns teístas morreram porque se negaram a receber transfusões de sangue, por princípios religiosos.

Podemos também notar que a oposição da Igreja Católica ao controle de natalidade - e aos preservativos em especial - está agudizando o problema da superpopulação em muitos países do terceiro mundo e está também contribuindo para a disseminação da AIDS em todo o mundo.

Sabe-se de crentes que têm preferido assassinar os seus filhos a deixá-los tornarem-se ateus ou a casarem com alguém doutra religião. Conhecemos casos de lideres religiosos que justificaram assassinatos devidos a supostas blasfêmias.

Houve muitas guerras religiosas. Mesmo se aceitarmos o argumento que a religião não era a verdadeira causa dessas guerras, no entanto ela foi usada como efetiva justificativa para elas.

Eles não eram crentes verdadeiros. Somente diziam sê-lo como desculpa.

Isso parece-se com a falácia do "Nenhum escocês de verdade".

O que faz um crente de verdade? Há tantas "Religões Únicas Verdadeiras", que fica difícil afirmar. Olhemos para o Cristianismo: há muitos grupos concorrentes, todos convencidos que são os únicos verdadeiros cristãos. Por vezes chegam a lutar e a matar-se uns aos outros. Como pode um ateu saber qual é o verdadeiro cristão, e qual não é quando mesmo as maiores igrejas cristãs como a Igreja Católica e a Igreja da Inglaterra não podem decidir-se entre elas?

Por fim, a maioria dos ateus toma uma posição pragmática, e considera que qualquer um que se intitule cristão e utiliza as crenças cristãs ou dogmas para justificar as suas ações, deveria ser considerado cristão. Talvez alguns destes cristãos estejam pervertendo os ensinamentos de Cristo para seus próprios fins - mas se a Bíblia pode ser usada tão facilmente para apoiar atos não-cristãos, como poderá ser de verdade um código de moral? Se a Bíblia é a palavra de Deus, por que ele não a fez menos difícil de ser mal interpretada? E como pode você saber que se as suas crenças não são uma perversão do que Deus propôs?

Se não há uma só interpretação da Bíblia que não seja ambígua, então porque deveria um ateu aceitar uma interpretação em vez de outra, somente porque você o diz? Desculpe-me, mas se alguém afirma que crê em Jesus e que assassinou outros porque Cristo e a Bíblia lhe disseram para fazer isso, temos de considerá-lo cristão.

Obviamente, essas espécies extremadas de crenças deveriam ser questionadas. Mas como até hoje ninguém provou que Deus não existe, deve ser pouco provável que os mais básicos princípios religiosos, compartilhados por todas as crenças, sejam sem sentido

A coincidência de muitas crenças religiosas básicas não deveria nos surpreender, se tomarmos em conta que a religião é um produto da sociedade. Deste ponto de vista, as religiões tomaram emprestadas as idéias que contribuem para a estabilidade da sociedade - como o respeito a figuras da autoridade, uma proibição contra assassinatos, etc.

Adicionalmente, muitos dos temas comuns das religiões vieram das religiões anteriores. Por exemplo, tem sido sugerido que os Dez Mandamentos do Antigo Testamento, na verdade têm as suas raízes no Código de Hamurabi.

A afirmação de que, se algo não foi provado ser falso então é menos provável que seja sem sentido, é insustentável. Como se mencionou anteriormente neste diálogo, afirmações positivas acerca da existência de alguma entidade são inerentemente mais difíceis de refutar do que as negativas. Ninguém jamais provou que os unicórnios não existem, e há até muitas histórias acerca deles, mas isso não faz mais improvável que sejam mitos.

É portanto, mais válido assumir, como padrão, uma afirmação negativa do que uma positiva. Claro, os ateus "fracos" podem argumentar que não afirmar nada coisa é bem melhor.

Bem, então se Ateísmo é tão grandioso, porque há tantos teístas?

Infelizmente, a popularidade duma crença tem pouco a ver com quanto ela é "correta", ou se "funciona"; considere quanta gente acredita em astrologia, grafologia e outras pseudo-ciências.

Muitos ateus acham que é simplesmente da fraqueza humana querer acreditar em deuses. Certamente em muitas sociedades humanas primitivas, a religião permitiu ao povo lidar com fenômenos que ele não entendia adequadamente.

Seguramente, há mais acerca da religião do que só isso. No mundo industrializado, encontramos gente que crê em explicações religiosas de fenômenos, mesmo existindo explicações naturais perfeitamente adequadas. A religião pode ter surgido com o intento de explicar o mundo, mas hoje em dia, também serve para outros propósitos. Por exemplo, para muita gente, a religião cumpre uma função social, provendo uma sensação de comunidade e de congregação.

Mas muitas culturas desenvolveram religiões. Sem dúvida, isso quer dizer algo?

Na realidade não. A maioria das religiões são apenas superficialmente similares; por exemplo, vale a pena recordar que religiões como o Budismo e o Taoísmo carecem de qualquer conceito de Deus, no sentido cristão. Em resumo, não existe consenso entre as religiões sobre o que é Deus realmente. Então um dos problemas a ser enfrentado quando você desejar discutir sobre Deus com um ateu, é definir exatamente o que significa essa palavra.

Além do mais, a maioria das religiões está sempre pronta a denunciar as suas concorrentes, assim está fora de propósito usar uma religião para justificar outra.

E quanto aos cientistas e filósofos famosos que chegaram à conclusão de que um deus existe?

Primeiro, temos de notar que as pesquisas tipicamente encontraram em volta de 40% de cientistas que crêem em deus; assim vê-se que os crentes são minoria. (A pesquisa mais recente foi feita por Edward J. Larson e Larry Withman, em 1996, e apareceu na revista "Nature").

Para cada cientista ou filósofo que crê em deus, há outro que não acredita. Além do mais, como já foi indicado, a verdade duma crença não está determinada pela quantidade de gente que a sustenta. Também é importante assinalar que os ateus não vêem os cientistas e filósofos famosos do mesmo modo que os teístas vêem os seus lideres religiosos.

Um cientista famoso é somente um homem; pode ser um especialista em algumas áreas, mas quando fala de outros assuntos, as suas palavras não têem peso especial. Muitos cientistas respeitados, fizeram papel de bobos quando falaram de tópicos que estavam fora das suas especialidades.

Também, note que até os pontos de vista de cientistas famosos são tratados com ceticismo pela comunidade científica. Especialistas reconhecidos em algum campo particular ainda devem fornecer evidências para sustentar as suas teorias; a ciência só se fia em resultados reproduzíveis, independentemente confirmados. Teorias novas que sejam incompatíveis com muito do conhecimento científico existente, serão objeto de escrutínio especialmente apertado; mas se o trabalho é sensato e as experiências reproduzíveis, as novas teorias substituirão as antigas.

Por exemplo, ambas a teoria da relatividade e a da mecânica quântica foram muito controversas e fizeram com que muito das teorias científicas existentes fosse jogado fora. Mesmo assim, ambas foram relativamente aceitas rapidamente depois que experimentos extensivos provaram sua exatidão. Teorias pseudo-científicas tais como o criacionismo, são rejeitadas não porque são controversas, mas porque simplesmente não se mantêm perante análises científicas básicas (Ver FAQ da talk.origins para mais informações; http://www.talkorigins.org.)

O documento Construindo um Argumento Lógico tem mais a dizer sobre verificação científica e prova por autoridade.

Então você está dizendo que a ampla difusão da crença religiosa não indica nada?

Não completamente. Certamente indica que a religião em questão tem propriedades que a ajudou a se espalhar tanto.

A teoria da memética fala sobre os "memes" - conjuntos de idéias que podem propagar por si mesmas entre mentes humanas, em analogia com os genes. Alguns ateus vêem as religiões como conjuntos de memes parasitas particularmente bem sucedidos, que se espalharam por encorajarem os seus hospedeiros em converterem os outros. Alguns memes evitam a destruição por desencorajarem os crentes no questionamento da doutrina, ou por pressionarem os ex-crentes a não admitirem que estavam errados. Alguns memes religiosos chegam a encorajar os seus hospedeiros a destruir outros hospedeiros contolados por outros memes.

Claro, que do ponto de vista memético, não há nenhuma virtude particular associada à bem sucedida propagação dum meme. Religião não é uma coisa boa por causa do número de pessoas que acreditam nela, tal como uma doença não é boa por causa do número de pessoas que a pegaram.

A aproximação memética tem contudo pouco a afirmar sobre a veracidade da informação nos memes.

Mesmo que a religião não seja inteiramente verdadeira, pelo menos difunde mensagens importantes. Quais são as mensagens fundamentais do Ateísmo?

Há muitas idéias importantes que o Ateísmo promove. As seguintes são apenas algumas delas; não fique surpreso de encontrar idéias que também estão presentes em algumas religiões.

  • O comportamento moral é mais do que seguir regras irrefletidamente.
  • Seja especialmente cético com afirmações positivas.
  • Se você quer que sua vida tenha algum sentido, é você que tem de descobri-lo.
  • Procura a verdade, mesmo que isso não lhe seja confortável.
  • Aproveite o máximo da sua vida, porque é provavelmente a única que você terá.
  • Não é bom depender de algum poder externo para você mudar; você deve mudar sozinho.
  • Só porque algo é popular não significa que é bom.
  • Se você tem de assumir algo, assuma algo fácil de testar.
  • Não acredite em coisas só porque você quer que sejam verdadeiras.

E finalmente (e mais importante):

  • Todas as crenças devem estar abertas à crítica.

Obrigado pelo tempo que levou para ler este documento.

Comentários

Andre Bellucco - alemdamoral@ig.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 02/02/2002

Otimo texto!!! Muitos teístas deveriam ler e refletir sobre suas crenças. Como ateu, penso na vida como uma busca constante por novos paradigmas, aceitando a morte como a única e definitiva verdade.

Charles Tadeu Rodrigues - charlest.rodrigues@bol.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 30/10/2001

Não tenho certeza de como posso me classificar, so sei que nao creio em religiao alguma e acho que o homem religioso de hoje nao tem nada haver com os de antigamente, entao gostaria que me mandassem mais informaçoes sobre agnosticismo, agnose, gnose etc.

Ivan Schüler - ischüler@uol.com.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 21/04/2001

Trechos do texto:
"Há muitas idéias importantes que o Ateísmo promove.
...
E finalmente (e mais importante):
Todas as crenças devem estar abertas à crítica."

"Primeiro, não é inteiramente claro que o ateísmo cético é algo em que se crê."


Ariovaldo Esgoti - esgoti@uol.com.br - Paraná Paraná, enviou em 30/07/2000

Meus cumprimentos pelo excelente material. Alegra-me o fato de que estejam sendo ampliados em número e qualidade os recursos (principalmente em português) sobre o ateísmo, que considero, uma forma de pensar a vida em que a abordagem dogmática e ingênua foi substituida pela crítica.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • Traduzido por Leo Vines
  • O ensaio base original está disponível em http://www.infidels.org/news/atheism/intro.html
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.